A Primeira Vez na Trilha da Laje

Faz muitos anos que eu e a minha família frequentamos o Voador. Porém, apenas recentemente, mais especificamente no dia 22 de julho deste ano, é que eu subi pela primeira vez a trilha da laje. A experiência foi tão marcante e especial, que eu resolvi contar para vocês o meu sentimento, e assim quem sabe te incentivar a fazer essa trilha quando você vier ao Voador também!


Estamos num típico inverno de céus muito azuis, sol forte durante o dia e aquele frio delícia de noite. São as férias do segundo ano de pandemia e era mais um dia normal na nossa semana, eu estava trabalhando na Nave enquanto o Martin, meu filho de 6 anos, havia passado o dia brincando com as outras crianças no Asas da Floresta. No almoço alguém comentou que iam subir a trilha da laje hoje, para comemorar a presença de alguns amigos que estavam visitando o Voador essa semana. Eu não tinha me preparado para o que estava por vir e acho que foi até mais um elemento que deixou tudo mais especial.


Eram 16h30 quando o pessoal veio me avisar que estavam se preparando para iniciar a trilha. Eu encerrei minha última reunião com um pouco de pressa, fechei o computador e saí correndo pra encontrar o pessoal. A subida era mais íngreme do que eu havia imaginado. Em vários trechos da trilha você precisa segurar nas cordas que estão colocadas em lugares estratégicos por ali. E a cada minuto que passa você se sente mais perto da natureza e embrenhado em uma mata linda, convidativa, brilhante. Eu estava sem as roupas mais adequadas e nem tinha me preparado psicologicamente, então fiquei bem pra trás na trilha e ia parando pra descansar de tempos em tempos, aproveitando para sentir a floresta - ela e eu. Enquanto isso, o Martin já estava muito mais lá na frente, junto com o restante do pessoal e as outras crianças, todas elas super acostumadas com esse passeio até a Laje.


A Laje é uma pedra muito grande, típica da nossa região aqui em Atibaia. O Voador está no coração do Monumento Natural Estadual da Pedra Grande - uma unidade de conservação ambiental -, e por isso temos esse privilégio de estar rodeados por uma área protegida e cheia de vistas maravilhosas. Ter a pedra da Laje dentro da área do Voador é um presente, um privilégio e a responsabilidade de cuidarmos muito bem desse pedaço de floresta onde estamos mais perto do céu.


Bom, já estamos quase lá, eu me sinto quase fazendo rapel por alguns minutos, segurando forte na corda e empurrando meu corpo trilha acima (ainda bem que me deram umas luvas, que ajudam muito no conforto nesses momentos mais íngremes). Quando eu vejo que estamos já andando em cima de uma pedra, e já consigo ver vistas maravilhosas à minha frente, eu acho que chegamos. Mas não vejo mais ninguém do nosso grupo por lá. É quando me falam: falta mais um pouco - é por ali! E a gente continua andando pedra acima, até passar por uma florestinha e passar pro outro lado da majestosa formação rochosa. Estamos agora bem de frente para o sol, que está quase se pondo. Aqui eu penso no significado "a perder de vista", pois realmente você não sabe para onde olhar primeiro. Cadeias de montanhas se fundem com um céu alaranjado e uma bola de fogo (o sol) está gentilmente chegando perto do horizonte e começando a se despedir da gente.


Eu olho pro pessoal todo sentado na pedra, uma fogueira acesa me surpreende tanto quanto os imensos sorrisos que se abrem quando eu finalmente me sento junto de todos e a gente fica contemplando em silêncio esse espetáculo da natureza que está prestes a acontecer! As crianças estão todas ali, se movendo com cuidado para perto dos seus, ou sentadas olhando fixo pro horizonte. Eu olho pro Martin e vejo que nunca vi meu filho tão calmo. É a trilha que deixa a gente com a sensação que deu bastante energia pra estar ali, mas também o esplendor do que encontramos no final do esforço.


Ao cair do sol, o Pedro e o Fabiano puxaram canções lindas que fizeram todos se sentirem conectados ao momento presente. Uma especialmente me marcou, e adultos e crianças acompanharam com suas vozes:


Os Pequeninos

Eu peço à Santa Estrela que nos guia

Força para as crianças trabalhar

Abençoa a todos os pequeninos

Os meninos e as meninas do astral


São João, o santo justiceiro

Te dê coragem, te dê força, te dê fé

Para quando tu crescer ser um guerreiro

Do Nosso Mestre Jesus de Nazaré


São João te dê a espada da paz

São José, o capacete da esperança

Eu peço a Virgem Santa Mãe

Que abençoe a todas as crianças


Eu então, abraço meu filhote e fico com a certeza que fizemos mais uma memória pra vida.


A volta é já no escuro, todas as crianças com a lanterna de cabeça, todo mundo se ajudando a descer com calma e atenção. A floresta te convida a ir tateando, segurando nos troncos, se abaixando quando preciso. Os mais experientes vão avisando quando tem algum caminho mais escorregadio ou difícil de se transpor. E chegamos todos felizes e cansados de volta ao início da trilha. Uma sensação de que eu pertenço à natureza e a natureza me completa me invade. A gratidão de poder experienciar momentos tão simples e ao mesmo tempo tão poderosos, junto dessa família incrível que é o Voador.


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